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28.3.04
Gostaram do boizinho, né? Todo dia eu passava em frente a essa placa pelo menos umas duas vezes, falava "boi nos aires!!", ria e completava: "preciso tirar uma foto". Deixei pra tirar no último dia, quase na hora de vir embora, num momento estressadinha, e acabei cortando um pedaço da placa. Mas o que importa é ter pra sempre essa lembrança do boizinho tão querido.
Mas se o churrasco era bom, eu não posso dizer, porque não comi lá, já que era um restaurante caro. E a gente só foi a um restaurante mais carinho (mas nem tanto) uma vez. E nesse dia, a gente merecia. Por causa disso, ó:
Imagine uma viagem de ônibus, de duas horas, numa estrada de terra toda esburacada. Mas esse é o preço a pagar para conhecer Caraíva, que eu queria muito-muito-muito, então ok, nem reclamei. E valeu a pena. Muito muito de verdade. Só que, quase na hora de voltar, choveu.
Deixa eu explicar primeiro o esquema, pra quem não conhece. Caraíva fica a duas horas de Arraial d`Ajuda, por uma estrada de terra. Que é muito bonita até, se a gente ignorar as crateras e os sacolejos. Chegando lá, a gente pega um barquinho e atravessa o rio Caraíva.

Esse aí é o rio (a cidade está ali na outra margem). Não se espantem, esse trabalho todo vale a pena, o local é lindo, uma praia imensa e deserta, uma cidadezinha onde o chão nem de terra é, é de areia da praia mesmo, não tem luz elétrica, nem carros. Minha idéia inicial era passar uns dias lá, mas depois de muito bem acomodados em Arraial, mudamos os planos e fomos a Caraíva para passar só um dia. E tem esse ônibus que sai às 7:30 e volta às quatro da tarde, então seria tranqüilo.
Só que lá pras três horas, começou a chover. E eu, lembrando da estrada, que já era ruim seca, fiquei preocupada, mas depois pensei que se a volta realmente fosse impossível, o motorista do ônibus ia avisar. A gente ia ter que arranjar um jeito de dormir lá, mas enfim. Depois de atravessar o rio novamente no barquinho, dessa vez em pé e debaixo de chuva, com um inglês nervoso porque não sabia nadar e um francês tentando puxar conversa (porque tiveram a brilhante idéia de dizer pra ele, ali pelo meio do rio, que eu "falava" francês), chegamos ao ônibus. O motorista não falou nada sobre a estrada e lá fomos nós.
Uns dez minutos depois, o ônibus resvalou e tombou de leve, atolando num buraco. Enquanto o motorista tentava sair o trocador, rindo, disse "esse é o primeiro de muitos sustos!". Esperançosa, perguntei: "você está brincando, né". Quanta inocência! Rindo mais ainda, ele respondeu: "a empresa faz de tudo pro cliente sair satisfeito".
Como descer ali no meio do nada estava fora de cogitação, continuamos. Até o ônibus parar novamente, todo mundo meter a cara na janela pra olhar e ver essa cena:

Pela cor do chão dá pra perceber que a estrada era barro puro. Ali no meio daquela ladeira tem um caminhão atravessado. Essa ladeira aí é uma que o motorista vinha há alguns minutos anunciando "se passar do ladeirão, tá tranquilo". Mas o caminhão chegou primeiro. E não passou. Patinou, escorregou, balançou, e ficou lá, fechando a estrada. Formou-se, assim, um improvável engarrafamento no meio do nada, já que ninguém passava. O motorista desceu com uma pá e foi ajudar os que já estavam tentando limpar a estrada.
Me lembrem de nunca mais entrar num ônibus cujo motorista carrega uma pá. Não é um bom sinal.
Ficaram todos lá, tirando barro da estrada, o caminhao desatravessou, tentou subir novamente, não conseguiu, quase caiu no precipício, ficou lá balançando, praticamente derrubou aquelas árvores, mas conseguiu voltar à estrada. Mas ele insistia em tentar subir novamente, e havia umas pessoas de carro querendo passar a todo custo, e nosso ônibus impedia, e não tinha ninguém para tirar o ônibus do caminho porque o motorista e o trocador estavam lá, tirando barro e quebrando concreto (estão vendo um muro em construção na foto? Pois o pedreiro deixou uns tijolos ao lado, que, na emergência, foram usados para fazer um pseudo-calçamento da estrada, fico só imaginando a cara do coitado quando voltou ao trabalho). Por fim, depois de muito muito tempo, e com todo mundo empurrando, o caminhão subiu.
Ainda tem alguém lendo? Juro que está acabando.
A essa altura, já estava escurecendo, os mosquitos estavam insanos e ficou claro pra todo mundo que o ônibus não ia conseguir subir de jeito nenhum. Mas ele ainda tentou, só pra ficar lá, atravessado na estrada. Já fora do ônibus, com barro até a alma, eu só pensava que passar a noite ali não seria realmente nem um pouco agradável.
Mas não contávamos com a astúcia do trocador, que negociou uma carona com o motorista do caminhão. E foi assim que tivemos que encarar duas horas, naquela estrada infeliz e à noite, no tal caminhão. Que, infelizmente, não era do tipo "pau-de-arara", como todo mundo pensa, daqueles que dá pra ir sentadinho (já andei num desses e é moleza). Era um caminhão de transporte de areia (vazio, claro, quer dizer, quase vazio). Tivemos que ir em pé mesmo. Segurando pra não pular fora a cada buraco. Abaixando toda hora pra desviar a cabeça das árvores, já que grande parte da estrada é no meio da mata. E fechando os olhos a cada ponte ou descida íngreme, pra não perceber como era fácil despencar.
Mas olha, depois que eu relaxei, foi divertido. Pra animar o abaixa-levanta, todo mundo gritava "madeeeira" a cada árvore mais próxima, como senha para desviar, e ria como se isso fosse a coisa mais engraçada do mundo. Depois, quando finalmente chegamos à parte plana, foi só sentir o ventinho no rosto e ficar olhando os vaga-lumes.
No fundo, no fundo, bem melhor que no ônibus. ;)
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